quarta-feira, 9 de abril de 2014

A história do homem triste

Deram-lhe um papel em branco e mandaram-lhe desenhar uma casinha e uma árvore. Então, deram-lhe os lápis de cor: verde para as folhas, marrom para o tronco da árvore e para o telhado da casinha, que deveria ser branca.

Foi considerado um mau pintor, porque sempre ultrapassava com a tinta os contornos da figura pré-existente no papel. 

Aprendeu a cobrir a linha pontilhada e a ligar os pontinhos.

Aprendeu, também, que a criatividade era como uma régua mágica: não se sabe para quê serve, então ele não precisava de uma.

Aprendeu que a geografia lhe trazia limites intransponíveis.

Enterrava sua vontade cada vez que ouvia um não.

Acreditou em tudo o que ele não poderia fazer, simplesmente porque NÃO.

Foi ensinado a não ser ousado. Seu sonho deveria caber no orçamento.

Aprendeu que os sonhos eram bonitos, mas eram apenas sonhos. A vida real era diferente.

Passou a viver uma vida ensaiada, pronta, sobre trilhos. Não poderia interferir no andamento do seu vagão predestinado. 

Quando todos os seus planos terminaram, ele se viu em apuros.

Descobriu que o mundo era maior do que aprendera e que a geografia lhe convidava a conhecer novas fronteiras.
  
Descobriu que fora feito para voar, mas não sabia usar as asas. (Não sabia que as tinha.) Quando as abriu, não sabia pra onde voar. 

Uma vez no ar, teve medo de cair. Preferiu continuar andando, sentindo o chão sob seus pés. Tinha medo do imprevisto. 

Teve de reaprender a viver. Agora não havia ninguém para lhe dizer a cor da casinha, não havia mais linhas para pontilhar e o papel para a pintura estava em branco.

Entendeu que sempre precisara daquela régua mágica.

Um comentário:

Daniele disse...

Que lindo amiga!