Deram-lhe um papel em branco e mandaram-lhe desenhar uma casinha e uma
árvore. Então, deram-lhe os lápis de cor: verde para as folhas, marrom para o
tronco da árvore e para o telhado da casinha, que deveria ser branca.
Foi considerado um mau pintor, porque sempre ultrapassava com a tinta os
contornos da figura pré-existente no papel.
Aprendeu a cobrir a linha pontilhada e a ligar os pontinhos.
Aprendeu, também, que a criatividade era como uma régua mágica: não se sabe para quê serve, então ele não precisava de uma.
Aprendeu que a geografia lhe trazia limites intransponíveis.
Enterrava sua vontade cada vez que ouvia um não.
Acreditou em tudo o que ele não poderia fazer, simplesmente porque NÃO.
Foi ensinado a não ser ousado. Seu sonho deveria caber no orçamento.
Aprendeu que os sonhos eram bonitos, mas eram apenas sonhos. A vida real
era diferente.
Passou a viver uma vida ensaiada, pronta, sobre trilhos. Não poderia
interferir no andamento do seu vagão predestinado.
Quando todos os seus planos terminaram, ele se viu em apuros.
Descobriu que o mundo era maior do que aprendera e que a geografia lhe
convidava a conhecer novas fronteiras.
Descobriu que fora feito para voar, mas não sabia usar as asas. (Não
sabia que as tinha.) Quando as abriu, não sabia pra onde voar.
Uma vez no ar, teve medo de cair. Preferiu continuar andando, sentindo o chão sob seus pés. Tinha medo
do imprevisto.
Teve de reaprender a viver. Agora não havia ninguém para lhe dizer a cor
da casinha, não havia mais linhas para pontilhar e o papel para a pintura
estava em branco.
Entendeu que sempre precisara daquela régua mágica.

Um comentário:
Que lindo amiga!
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